Entrevista com Pedro Martelletto

16/08/2004

Pedro MartelletoPedro Martelletto é um dos developers mais recentes do OpenBSD. É Brasileiro e o seu apelido deve-se às raízes italianas da sua família. Estuda Engenharia Informática na PUC-Rio e foi convidado em Maio desde ano a juntar-se à equipa de desenvolvimento. Nós fomos tentar conhecê-lo melhor.

1) Fala-nos um pouco sobre ti. O que te move na vida, por exemplo?

Pedro Martelletto: Tenho 21 anos e iniciei minha jornada no mundo do software livre aos 14, quando instalei meu primeiro Linux. Todos estes anos de contato despertaram em mim um interesse enorme pela área de Sistemas Operacionais. Hoje sou estudante de Engenharia de Computação na PUC-Rio, e pretendo fazer mestrado e doutorado nessa área.

2) Sei que ganhaste uma bolsa de investigação na Universidade há tempos. Podes falar-nos também sobre essa experiência?

Pedro Martelletto: Sou bolsista de iniciação científica do CNPq, um órgão de fomento à pesquisa do Governo Brasileiro. Pesquisar sempre foi minha vontade, e se hoje me vejo em tal atividade, é com enorme prazer. Gostaria de continuar neste ramo, muito embora no Brasil a pesquisa acadêmica possa ser uma experiência não muito gratificante em termos financeiros.

3) Para além do OpenBSD, estás envolvido noutros projectos como o o Alua, o Gtdir e o Rava. É difícil conciliares o tempo?

Pedro Martelletto: É um bocado difícil, mas não impossível. O que me toma mais tempo do que todos estes projetos é o curso de Engenharia, que é pesado e quando não bem administrado pode surpreender.

4) Como são os cursos de Engenharia Informática no Brasil? Usa-se muito Software Livre?

Pedro Martelletto: No Brasil, dois cursos de Engenharia de Computação se destacam: o da PUC-Rio e o da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), do qual não tenho conhecimento suficiente para discorrer sobre. Na PUC-Rio, trata-se de um curso de excelência, que conta com um Departamento muito bem estruturado e munido de professores competentes. Como é de se esperar em qualquer Departamento respeitável, há muita pesquisa, e faz-se uso substancial de software livre.

5) Como e quando começaste a usar OpenBSD?

Pedro Martelletto: Comecei por indicação de um amigo, no final de 1999.

6) Como foram os teus primeiros contactos com outros developers?

Pedro Martelletto: O primeiro developer com quem tive contato foi o Federico Schwindt, pessoa pela qual nutro profunda admiração. Logo depois conheci o Jolan Luff, não menos admirável. Ambos me apoiaram e me incentivaram bastante para que eu começasse a contribuir com código. Desde o início até hoje o contato se dá basicamente por um chat de pouca, mas qualitativa difusão, onde alguns developers ficam.

Uma curiosidade é que o Federico morou aqui no Rio por alguns anos, mas eu desconhecia tal fato até conhecê-lo virtualmente, quando então o mesmo já se encontrava, infelizmente, em Buenos Aires (sua terra natal).

7) E a primeira contribuição com código?

Pedro Martelletto: Stricto sensu, minha primeira contribuição com código foi para o cdio, com a adição de suporte a biblioteca libedit, no início de 2003.

8) Desde que foste convidado para ser commiter em Maio deste ano, a tua vida mudou muito?

Pedro Martelletto: Não. Apenas tenho uma carga maior de responsabilidade nas costas, o que por si só não é algo ruim, dado o meu publicamente manifestado compromisso com o projeto, o prazer que sinto ao contribuir para o mesmo e meu interesse pela área.

9) Que áreas/tarefas estás responsável no desenvolvimento do OpenBSD neste momento? Que estas a trabalhar que é previsto estar disponível na 3.6?

Pedro Martelletto: Trabalho no kernel como um todo. Ultimamente tenho me concentrado na parte de Virtual File Systems (VFS) pra ser mais exato. Trata-se de uma camada implementada para que o kernel possa lidar com diferentes filesystems de uma maneira uniforme. Para o release 3.6 não trouxe nenhuma nova funcionalidade, tendo apenas corrigido alguns bugs e tornado o sistema mais robusto.

Embora com menor frequência, trabalho na manutenção de algumas ferramentas da userland e de alguns ports também.

10) Já ouvi falares que nos ports devia-se usar outra coisa sem ser o Perl, queres explicar essa questão melhor?

Pedro Martelletto: Minha crítica à utilização do Perl pode ser resumida ao seguinte ponto: existem alternativas melhores, no que diz respeito aos recursos oferecidos pela linguagem, ao tamanho da mesma e, consequentemente, ao esforço necessário para mantê-la e auditá-la.

11) Quando falas do OpenBSD a alguem, como é que o caracterizas?

Pedro Martelletto: Eu costumo caracterizar o OpenBSD não como um sistema perfeito, divino (como muitos parecem pateticamente fazer, em sua maioria em relação ao Linux), mas como um sistema de desenvolvimento sólido e maduro, de ambiente sadio.

Também não escondo o fato do OpenBSD apresentar sérias deficiências em matéria de escalabilidade. Refutar isso é no mínimo infantil. Porém, há espaço para que estas dificuldades sejam superadas, sem que se repitam eventuais erros cometidos por outros sistemas na busca pelo mesmo objetivo. E sempre, é claro, mantendo a simplicidade, a clareza e a elegância dos códigos que são marca registrada do projeto.

Aos que me perguntam que sistema instalar, respondo que caso a velocidade não seja um fator limitante no papel a ser desempenhado pela(s) máquina(s) em questão, o OpenBSD se apresenta como forte candidato e deve ser considerado.

12) Achas que os developers tem uma atitude um bocado fechada para os que acabaram de conhecer o sistema? A que acha que isso se deve?

Pedro Martelletto: A estranhos sim, o que é natural. Mas basta algum tempo de contato para que este mito caia por terra. Há alguns mais fechados, é verdade, mas outros nem tanto. A media é muito aquém do "fechado".

13) Quais as 3 coisas que gostarias de ver implementadas e que ainda não estão disponíveis?

Pedro Martelletto: Em ordem de importância:

- Jails. Alguma coisa na linha do que foi implementado no FreeBSD.
- UBC (Unified Buffer Cache). Visa fazer com que sistemas de arquivos e o mecanismo de memória virtual compartilhem um mesmo cache de dados.
- Suporte a 'lightweight user processes' (threads) no kernel.

14) Quais são, ou deviam ser, as prioridades para as futuras releases do OpenBSD?

Pedro Martelletto: Quanto à segurança, o mesmo cuidado e a mesma dedicação de sempre. Porém, gostaria de ver mais esforço empregado em melhorias relativas a escalabilidade e performance.

15) Que outros sistemas operativos além do OpenBSD usas? porquê?

Pedro Martelletto: Atualmente nenhum. Mas em breve terei que instalar o Windows XP. Não haverá como fugir desta vez.

16) O que pensas dos ultimamente tão falados upgrades binários?

Pedro Martelletto: Penso que os mesmos são uma necessidade. Mas, para colocá-los em prática, é preciso antes ver qual a melhor forma de aliar este esquema de upgrade com os padrões de segurança do OpenBSD. E é aí que reside o principal obstáculo à implementação de tal mecanismo, na minha opinião. Enquanto ninguém apresentar uma solução viável para este problema, receio que a idéia não vá sair do papel.

17) Qual o teu desktop/window manager preferido?

Pedro Martelletto: Eu gosto muito do Ion. Vale a pena conferir.

18) O que gostas de fazer nos teus tempos livres?

Pedro Martelletto: Ler, estudar e ouvir música.

19) Tens alguma mensagem para os portugueses interessados no OpenBSD?

Pedro Martelletto: Gostaria de parabenizá-los pela organização e criação do OpenBSD PT. Deixo aqui meus votos de bons debates, pois não apenas de linhas de código e desenvolvedores um sistema é feito, mas também de idéias e de usuários conscientes. Mais uma vez, parabéns.

Me coloco à disposição para futuros contatos.

Um muito obrigado em nome do OpenBSD .PT, foi uma honra para nós fazer esta entrevista na nossa lingua materna. Obrigado!

Entrevista conduzida por Nuno Morgadinho e Rui Reis.

http://www.inf.puc-rio.br/~pbastos/

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